é difícil decidir como me sinto sobre algumas coisas. já marquei data e horário pra sentar quietinha à meia luz do meu quarto e resolver: “sobre isso, eu me sinto assim!”
mas não funciona, porque não dá pra controlar.
(logo eu, que quero sempre controlar tudo)

ontem eu tive um dia ótimo. sai dirigir com as meninas. colocava o corpo para fora da janela do carro e sentia o vento forte bater. cheguei em casa e fui recebida pela minha cachorra. deitamos juntas no sofá e conversamos sobre a vida. meu cachorro me entende. eu estava leve. como eu me sentia sobre? tranquila.
mas a noite é sempre uma reviravolta.
por aqui as novidades correm rápido e minhas suspeitas se confirmaram. um soco no estômago.
acordei incomodada no domingo às 13 horas. sozinha. cansada. repensando, “logo agora que eu estava quase me decidindo como me sentia”
encontros e desencontros.

Anonymous said: Time?

sem time

19 semanas

parece que um pedaço de mim foi roubado
ou só foi a vida agindo como um soco no estômago
a minha ressaca era muito mais interna do que física
doía cada parte de mim por finalmente estar entendendo algumas coisas
arrastei tudo isso por 19 semanas
19 semanas desde o inicio de tudo
dessa bagunça criada dentro de mim
e o que eu mais tinha medo aconteceu
não fui procurada
foi o fim sendo gritado na minha cara
já tinha acabado, afinal
a gente só leva um tempo pra aceitar essas coisas
e agora tudo ficou claro
e a clareza trouxe junto um vazio imenso que me roubou qualquer coisa boa que eu poderia sentir
- nem alívio mais-
começando de novo
mais uma vez

(cansa ter que ficar se reerguendo o tempo todo)

cena 8, capítulo 39

eu tô um pouco triste
não sei se eu posso
ou se eu devo
mas eu tô igual

minha mãe sempre falou que eu era uma pessoa vazia
que me preenchia com pequenas coisas materiais por um curto período
e depois
esvaziava

me disse isso uma vez olhando nos meus olhos enquanto gritava comigo
e na outra a ouvi falando para meu pai, enquanto eu fingia dormir no quarto de hotel de nova iorque
"ela é vazia
nasceu com um vazio imenso
nada nunca vai preencher”

então eu vivo um pouco triste
tenho alguns momentos de alegria que duram alguns instantes
e vão embora
deixando de fazer companhia à minha tristeza

é tudo incompleto. nada nunca vai preencher

eu só quero te dizer que a vida segue do lado de cá
(mas contigo era mais bonito)

sábado de manhã, não acordei na minha cama
mas dessa vez foi diferente
duas amigas sonolentas ao meu lado, apertadas no espaço de uma cama de casal
faz frio por aqui. a temperatura não passa de 3 graus
mas o quarto é quente. e tem amor
"se tu ficar triste, todas nós vamos ficar", repetiram elas a noite inteira
mas eu não consigo mais ficar feliz
parece que sempre falta alguma coisa
as pessoas que chegam e que vão, me levam partes muito grandes
quando eu volto para casa e coloco a cabeça no travesseiro, fico processando tudo o que já aconteceu
eu me conto a mesma historia todo o dia
eu tento achar uma explicação pra minha felicidade ter ido embora assim, de repente
à meia luz, no meu quarto, fecho os olhos e relembro
de todos os outros momentos de que fiquei assim, à meia luz, rindo sozinha por ter alguém ali
por mim
na verdade nunca houve ninguém
só houve uma ilusão
uma atrocidade, um mal entendido
um turbilhão de sentimentos que nasceram e morreram em um piscar de olhos
as pessoas que chegam muito rápido na nossa vida, vão embora da mesma maneira
sempre como chegaram
sem insistir
sem avisar
as pessoas vão embora, luisa
o eterno nunca dura.

eu tinha vinte anos e eu tinha pressa
como se o tempo não fosse o de agora
como se eu vivesse atrasada a dar passos largos
maiores que as pernas
um dia desses que se acorda sem querer
eu descobri que felicidade tem muito mais a ver com paz do que com alegria
felicidade tem a ver com paz

terceiro dia


meu corpo já acorda sozinho minutos antes do despertador tocar
a rotina anda aliviando
distraindo
tranquilizando a alma

mas eu acordo com enjôo
uma vontade de vomitar tudo pra fora
tirar tudo de ruim
a dor
o medo
a tristeza
o grotesco
e voltar a respirar tranquila
sem ninguém pra chegar
nem ninguém pra ir
embora.

eu não acabo nem meus livros, quem dirá meus relacionamentos.

por mais que eu goste. por mais que seja bom e a história me prenda. eu não acabo. só porque eu não gosto do fim. só porque não gosto de pensar que acabou e era isso, não tem nada a mais, se gostou muito leia de novo. não.

nunca é igual a primeira vez. a primeira leitura. a primeira impressão. 
o mesmo vale para as minhas relações. prefiro deixar inacabado do que por um ponto. talvez em um outro tempo dê vontade de voltar. continuar. “ler de novo”.
é inacabado
incompleto
é como os meus livros que eu nunca soube o fim
a dúvida de como acabou o personagem principal
a curiosidade de saber o fim da trama
enterrados por eu mesma embaixo das minhas lembranças.

eu entrei no ônibus depois de um dia corrido de trabalho e enquanto esperava o amontoado de pessoas parar de se empurrar e passar pela catraca, escutei a conversa da cobradora. conversava com uma passageira, com tom de voz mais alterado, sobre alguém. ela o chamava de “ele”. porque já que “ele” não a queria mais, que fizesse algo a respeito.
olha só, mais alguém reclamando sobre o amor em plena segunda-feira.
eu dormi atordoada noite passada. normalmente essas coisas acontecem. normalmente quando eu tento resolver as coisas de cabeça quente. eu coloquei a cabeça no travesseiro e pensei “tudo estava tranquilo há 24 horas atrás”. mas eu borro tudo.
hoje eu fiz o caminho até o trabalho no automático. não precisei nem dos fones de ouvido. eu só deixei minhas pernas me levarem por entre as ruas, dobrarem as esquinas… eu só deixei.
eu nunca fui boa em guardar as coisas pra mim. eu sempre precisei gritar alto. e ontem eu gritei. eu sempre escolho os domingos. eles já têm um peso próprio, e ultimamente, os meus já começam com um peso a mais. acordei em casa. na minha cama. isso foi estranho comparado às últimas semanas. liguei o computador e tentei fazer meus trabalhos de aula. ora, eu ainda tento fazer esses malditos trabalhos de aula. são a melhor desculpa que eu tenho para ocupar a cabeça. mas não consegui. foi no silêncio da sala, onde só a luz fraca da tarde nublada entrava pela janela que eu afundei. eu não lido bem com as lembranças. desde que eu resolvi encarar a sobriedade da vida, percebi como é difícil lembrar de tudo. não pela memória falhar, mas sim por ela funcionar demais. nem sempre as pessoas dizem o que realmente querem dizer. às vezes é só impulso.
de qualquer forma, como eu dizia, eu vi logo no fim da tarde que eu não era a única que reclamava sobre amor. de tudo o que eu falei você continua me respondendo com as mesmas palavras. “não sei o que te dizer”. cara, diz o que você me diz toda noite quando toma um pouco de trago a mais. repete o porquê voltou pra minha cidade esse fim de semana. fala de novo que seus amigos são uma desculpa, que veio me ver. repete sobre marcar a data pra mais um fim de semana no teu apartamento. diz que promete café na cama se eu dormir contigo de novo. mas não me interpreta mal. e não vem com essa cara sínica que eu enxergo ela daqui, a 120 quilômetros de distância. como você tem coragem de me dizer que não quer compromisso quando já me envolveu nisso até o pescoço? não sei se tua memória falha, mas eu posso te lembrar quem começou com isso tudo, e não fui eu.
foi tudo o que eu pensei no caminho do trabalho até em casa. se vou te falar alguma coisa, ainda não sei. por essa semana deixo só o silêncio. quem sabe outro dia a gente se vê.