INCOMPLETO

"é assim porque é assim"

nosso fim

e ainda tem gente que não entende. não é só tirar a tua escova de dente do armário do banheiro. é te tirar do coração.

tem dias que eu tenho vontade de gritar

bem alto pro mundo inteiro ouvir

o quanto doeu e o quanto dói não fazer mais parte de

nada

eu guardo todos os meus erros dentro do meu guarda-roupa

em meio as roupas dobradas e algumas amontoadas nas prateleiras eu escondo cada erro.
as garrafas de bebida eu costumo esconder junto com os sapatos sujos das festas, que eu tiro e jogo nas caixas.
o celular novo, que meu pai ainda está pagando e eu estraguei está enrolado em uma saia velha no fundo das pilhas de roupa.
os chocolates que compro escondido ficam no fundo das gavetas.
mas meus maiores erros precisam de uma prateleira inteira. ali eu também guardo as minhas mágoas. as minhas lembranças e a minha culpa. ali eu guardo toda a saudade desse mundo.
eu guardo a minha dor pela separação dos meus pais. guardo a tristeza da partida de meu vô. guardo o desespero do dia em que minha mãe fez as malas saiu de casa. guardo os amigos que foram embora. cada um deles. guardo o meu coração quebrado por um namoro tão verdadeiro que de repente não deu certo e todo o remorso por saber que eu poderia ter sido mais. e ainda arranjo um canto pra angústia da espera, enquanto esse amor insiste em permanecer.
e as coisas novas que eu compro? ah, elas eu jogo em cima do balcão. não tem espaço lá dentro enquanto eu não programar uma nova faxina.
e a única coisa que me faz encarar esse guarda-roupa lotado todo o dia na hora de me trocar e de colecionar os meus erros, é o lembrete que se mantém firme no canto interno da porta lateral: “paz é quando você se perdoa”.

you just need to be here and here stand

 

eu te escrevo há quatro anos. ainda não te entreguei 1/3 das minhas cartas. elas tão aí, jogadas nas minhas gavetas, nas últimas páginas dos cadernos velhos ou até mesmo parafraseadas na parede rabiscada do meu quarto. eu me comunico contigo desse jeito. até quando a gente ficou longe por mais de trezentos e sessenta e cinco dias, eu nunca perdi o contato contigo. porque eu nunca deixei de te escrever. quando estávamos juntos, começava minhas cartas mentalmente mas elas não vigoravam. te escrevo melhor na tristeza. na distância. sou o modelo vivo do “só-se-dá-valor-quando-se-perde”. mas eu já te perdi tantas vezes! e o bom de perder é isso, poder um dia, encontrar de novo. tô indo te encontrar. ainda vou demorar uns dias, sei que tu ainda não tá pronto pra me abrir a porta. mas tô indo te encontrar. enquanto isso eu faço meu caminho devagarinho pra ti ganhar tempo. tomar um banho demorado, colocar a camiseta com mais cheiro de amaciante de limão. e eu vou caminhando.
sei que logo ali na frente tem um lugarzinho só nosso. eu até consigo ver daqui. espero que tu consiga enxergar também. pra não se atrasar pro nosso dia.
enquanto isso, eu caminho
e
te
espero.

a gente ia comprar um cachorro
guardar dinheiro e viajar pra longe
no quente ou no frio
nossos filhos já tinham nomes
e o sushi caro da cidade era só depois de casar
queria te levar ver o céu no morro mais alto das redondezas
e dormir mais uma vez no sofá da sala enquanto o filme passava na tv
entrar na loja de brinquedos e comprar os legos que a gente tanto olhava
e brincar com minha cachorra na sacada da tua casa

tardemais pra ser sem dor

"eu sempre quis ter uma boa memória
até eu perceber
que a vida é esquecer

eu sempre tentei nos prender aqui
até eu entender
que a vida é deixar ir

ah, eu sempre quis o pra sempre
mas daí eu compreendi
que tudo na vida é feito pra acabar


até a vida.”

eu disse obrigada e coloquei a flor na água
eu sabia que certamente aquela seria a última flor
mesmo sendo roubada do jardim alheio, o caule grotescamente arrancado, a falta de cheiro
seria a última flor
e coloquei no copo d’água depois que você foi embora
depois do silêncio e do abraço fraco
eu encarei o teto tentando descobrir o que eu deveria sentir
dor? tristeza? desprezo?


eu apenas fui dormir

vivendo na turbulência

— uma hora esse avião cai —

não nos olhamos nos olhos e nem perguntamos mais sobre as coisas boas do nosso dia. a tela da televisão distrai. esquecemos do amor no percurso e não temos mais forças para voltar e procurá-lo. 
o coração bate acelerado enquanto o telefone não toca. a palavra dita volta como um soco na boca do estômago. os olhos inquietos procuram sossego mesmo fechados e a imagem na cabeça se torna um borrão.

"e se eu for o primeiro a prever e poder desistir do que for dar errado?"