sábado de manhã, não acordei na minha cama
mas dessa vez foi diferente
duas amigas sonolentas ao meu lado, apertadas no espaço de uma cama de casal
faz frio por aqui. a temperatura não passa de 3 graus
mas o quarto é quente. e tem amor
"se tu ficar triste, todas nós vamos ficar", repetiram elas a noite inteira
mas eu não consigo mais ficar feliz
parece que sempre falta alguma coisa
as pessoas que chegam e que vão, me levam partes muito grandes
quando eu volto para casa e coloco a cabeça no travesseiro, fico processando tudo o que já aconteceu
eu me conto a mesma historia todo o dia
eu tento achar uma explicação pra minha felicidade ter ido embora assim, de repente
à meia luz, no meu quarto, fecho os olhos e relembro
de todos os outros momentos de que fiquei assim, à meia luz, rindo sozinha por ter alguém ali
por mim
na verdade nunca houve ninguém
só houve uma ilusão
uma atrocidade, um mal entendido
um turbilhão de sentimentos que nasceram e morreram em um piscar de olhos
as pessoas que chegam muito rápido na nossa vida, vão embora da mesma maneira
sempre como chegaram
sem insistir
sem avisar
as pessoas vão embora, luisa
o eterno nunca dura.

eu tinha vinte anos e eu tinha pressa
como se o tempo não fosse o de agora
como se eu vivesse atrasada a dar passos largos
maiores que as pernas
um dia desses que se acorda sem querer
eu descobri que felicidade tem muito mais a ver com paz do que com alegria
felicidade tem a ver com paz

terceiro dia


meu corpo já acorda sozinho minutos antes do despertador tocar
a rotina anda aliviando
distraindo
tranquilizando a alma

mas eu acordo com enjôo
uma vontade de vomitar tudo pra fora
tirar tudo de ruim
a dor
o medo
a tristeza
o grotesco
e voltar a respirar tranquila
sem ninguém pra chegar
nem ninguém pra ir
embora.

eu não acabo nem meus livros, quem dirá meus relacionamentos.

por mais que eu goste. por mais que seja bom e a história me prenda. eu não acabo. só porque eu não gosto do fim. só porque não gosto de pensar que acabou e era isso, não tem nada a mais, se gostou muito leia de novo. não.

nunca é igual a primeira vez. a primeira leitura. a primeira impressão. 
o mesmo vale para as minhas relações. prefiro deixar inacabado do que por um ponto. talvez em um outro tempo dê vontade de voltar. continuar. “ler de novo”.
é inacabado
incompleto
é como os meus livros que eu nunca soube o fim
a dúvida de como acabou o personagem principal
a curiosidade de saber o fim da trama
enterrados por eu mesma embaixo das minhas lembranças.

eu entrei no ônibus depois de um dia corrido de trabalho e enquanto esperava o amontoado de pessoas parar de se empurrar e passar pela catraca, escutei a conversa da cobradora. conversava com uma passageira, com tom de voz mais alterado, sobre alguém. ela o chamava de “ele”. porque já que “ele” não a queria mais, que fizesse algo a respeito.
olha só, mais alguém reclamando sobre o amor em plena segunda-feira.
eu dormi atordoada noite passada. normalmente essas coisas acontecem. normalmente quando eu tento resolver as coisas de cabeça quente. eu coloquei a cabeça no travesseiro e pensei “tudo estava tranquilo há 24 horas atrás”. mas eu borro tudo.
hoje eu fiz o caminho até o trabalho no automático. não precisei nem dos fones de ouvido. eu só deixei minhas pernas me levarem por entre as ruas, dobrarem as esquinas… eu só deixei.
eu nunca fui boa em guardar as coisas pra mim. eu sempre precisei gritar alto. e ontem eu gritei. eu sempre escolho os domingos. eles já têm um peso próprio, e ultimamente, os meus já começam com um peso a mais. acordei em casa. na minha cama. isso foi estranho comparado às últimas semanas. liguei o computador e tentei fazer meus trabalhos de aula. ora, eu ainda tento fazer esses malditos trabalhos de aula. são a melhor desculpa que eu tenho para ocupar a cabeça. mas não consegui. foi no silêncio da sala, onde só a luz fraca da tarde nublada entrava pela janela que eu afundei. eu não lido bem com as lembranças. desde que eu resolvi encarar a sobriedade da vida, percebi como é difícil lembrar de tudo. não pela memória falhar, mas sim por ela funcionar demais. nem sempre as pessoas dizem o que realmente querem dizer. às vezes é só impulso.
de qualquer forma, como eu dizia, eu vi logo no fim da tarde que eu não era a única que reclamava sobre amor. de tudo o que eu falei você continua me respondendo com as mesmas palavras. “não sei o que te dizer”. cara, diz o que você me diz toda noite quando toma um pouco de trago a mais. repete o porquê voltou pra minha cidade esse fim de semana. fala de novo que seus amigos são uma desculpa, que veio me ver. repete sobre marcar a data pra mais um fim de semana no teu apartamento. diz que promete café na cama se eu dormir contigo de novo. mas não me interpreta mal. e não vem com essa cara sínica que eu enxergo ela daqui, a 120 quilômetros de distância. como você tem coragem de me dizer que não quer compromisso quando já me envolveu nisso até o pescoço? não sei se tua memória falha, mas eu posso te lembrar quem começou com isso tudo, e não fui eu.
foi tudo o que eu pensei no caminho do trabalho até em casa. se vou te falar alguma coisa, ainda não sei. por essa semana deixo só o silêncio. quem sabe outro dia a gente se vê.

dormir bem cansado e acordar do teu lado


((golden days))

dormir bem cansado e acordar do teu lado

((golden days))

"viu só?" - disse meu pai apontando pros azulejos brancos da parede da cozinha - "tão caindo."
- dizia ele fitando os pedaços de massa corrida que seguravam os azulejos caídos pelo chão -
segui reto pelo corredor pensando em silêncio. as paredes da minha casa estão caindo. já caiu tanta coisa por aqui. no fim só faltavam as paredes…
joguei a bolsa pesada sobre a cama e arremessei as botas na direção da parede. tirei a calça jeans, o casaco e a blusa rapidamente, como se caso ficassem mais um segundo em meu corpo fossem me sufocar. vesti o pijama.
tem dias que eu me sinto assim
amarrada
sufocada
e
caindo aos pedaços.

o maior problema? eu não lido bem com o silêncio
nem com o meu
muito menos com o dos outros
porque pra mim o silêncio é ponto
o silêncio é fim
é agressivo
ele grita alto


coisas muito ruins acontecem
coisas muito boas acontecem
e de repente
não acontece mais nada
(nem a vida)

eu não te dividi com ninguém. guardei num potinho e fiquei em silêncio enquanto tudo acontecia. ninguém viu e eu fugi contigo pelas ruas da cidade deixando a festa tumultuada pra trás. tu abriu a porta do táxi para mim. tu fechou a porta do táxi para mim. foi nessa hora que eu me apaixonei. não uma paixão boba, nada romântico. não me apaixonei pela pessoa que eu já conhecia, mas sim pela alma que eu acabara de conhecer. me convenceu a sair à francesa de uma festa cheia de gente e atravessou a rua de mãos dadas comigo em direção ao primeiro táxi que passava.

elogiou o meu sorriso. o meu rosto. o meu corpo. a minha postura. a minha voz. o meu silêncio. até o meu tênis vermelho. foi um all-in. todas as fichas apostadas naquele momento. duas horas conversando estacionados em uma rua qualquer. o sol nasceu. me largou em casa e eu dormi sorrindo. ainda não tinha ideia do que estava acontecendo.

as coisas andam com mais facilidade quando sabemos manter segredo. a nossa imagem refletida no espelho te lembrava um quadro do delacróix. te disse no primeiro momento que achava que éramos parecidos. viajei 200 km do teu lado pra ti concordar comigo. se freud explica que “minha casa é minha intimidade”, desculpa por invadir a tua. agora é tarde demais! a senha do wifi. a amizade do cachorro. a tv que não regula o volume. a manha para trancar a porta do carro. “agora tu já é de casa”. sushi a dois. cerveja a dois. barzinho a dois. lençóis a dois. e um café na cama pela manhã.

se tu não vens me ver, amor, deixa que eu vou. andar de mãos dadas pelas ruas da cidade grande e ser invisíveis para quem passa por nós.

nosso fim

e ainda tem gente que não entende. não é só tirar a tua escova de dente do armário do banheiro. é te tirar do coração.